A obtenção de elevadas produtividades do canavial é a forma mais eficaz de reduzir o custo por tonelada produzida. Diversos fatores influenciam a produtividade do canavial, destacando-se a correção do solo e adubação, qualidade das operações agrícolas (preparo do solo, sulcação, distribuição das mudas, cobrição, tratos culturais, colheita sem pisoteio),
controle das plantas daninhas, pragas e doenças, regime pluvial e a escolha adequada da variedade considerando o ambiente de produção (tipo de solo), e a época de plantio e de colheita.

A cana-de-açúcar é cultura semi-perene, com capacidade de enraizamento profundo, desde que as condições químicas, físicas e hídricas sejam adequadas. O adequado desenvolvimento do sistema radicular irá permitir que a cultura suporte períodos de déficit hídrico, garantindo a manutenção de elevadas produtividades. É nesse cenário que destaca-se a correção química do solo, visando dar condições para o adequado desenvolvimento do sistema radicular e estabelecimento do canavial.

A calagem é a primeira prática a ser adotada na implantação e na manutenção da cana-de-açúcar. Além de fornecer cálcio e magnésio, promove correção da acidez, diminuição da toxidez por alumínio, promovendo maior disponibilidade e aproveitamento dos nutrientes. Além disso, aumenta a atividade microbiana do solo (maior fixação biológica do N2 do ar; maior mineralização da matéria orgânica) e melhor agregação do solo.

Os critérios de recomendação de calagem mais utilizados para cana-de-açúcar no Brasil são o da saturação por bases (V%) e o da elevação dos teores de cálcio e magnésio. O critério da saturação por bases considera parâmetros físico-químicos do solo (CTC, V%), da planta (saturação por bases mais adequada, ou seja, V% = 60) e do calcário (PRNT). A adaptação, para o caso da cana-de açúcar, é o cálculo da calagem para correção mais profunda do solo quando comparado com culturas anuais. Abaixo segue a descrição dos dois critérios para estabelecimento do canavial (canaplanta) ou manutenção (soqueira).

Calagem para implantação do canavial

 

 

 

 

Em que:
NC = necessidade de calagem, em t ha-1
V1* = Saturação por bases atual do solo na camada de 0-20 ou 0-25 cm
CTC* = Capacidade de troca de cátions na camada de 0-20 ou 0-25 cm, em mmolc dm-3
V1** = Saturação por bases atual do solo na camada de 20-40 ou 25-50 cm
CTC** = Capacidade de troca de cátions na camada de 20-40 ou 25-50 cm, em mmolc dm-3
PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total do corretivo (%)
Observação: caso a amostragem seja realizada nas camadas de 0-25 e 25-50 cm, multiplicar a dose de calcário por 1,25, para compensar a maior profundidade considerada.

b) Critério do cálcio e magnésio

Em solos muito arenosos, com CTC < 35 mmolc dm-3 e com baixos teores de Ca++ + Mg++ (< 30 mmolc dm-3), de acordo com o critério da saturação por bases (V%), pode não haver necessidade de calagem. Nesses casos, deve-se aplicar também a fórmula da Copersucar, para a camada de 0-20 ou 0-25 cm, visando elevação dos teores de Ca + Mg:

Critério do cálcio e magnésio

Em que:
NC = necessidade de calagem, em t ha-1
Ca = teor de Ca na análise do solo, na camada de 20-40 ou 25-50 cm, em mmolc dm-3
Mg = teor de Mg na análise do solo, na camada de 20-40 ou 25-50 cm, em mmolc dm-3
PRNT = Poder Relativo de Neutralização Total do corretivo (%).
Observação: se utilizada a profundidade de 25-50 cm, multiplica-se a dose de calcário por 1,25, para compensar a maior profundidade considerada.

Proceder os cálculos pelos dois critérios e recomendar a maior dose obtida. A aplicação do calcário deve ser realizada à lanço, de forma homogênea, em área total. É importante considerar que os corretivos da acidez de solo são de baixa solubilidade, isto é, necessitam de tempo para que tenham completa ação na elevação do pH. Por isso é desejável que seja aplicado com antecedência de pelo menos dois meses antes do plantio, para que sua eficiência seja completa.

É absolutamente necessária a incorporação para que ocorra a reação do calcário, devido à baixa mobilidade o no perfil do solo. A umidade é essencial para que o calcário reaja no solo. Mesmo quando adequadamente misturado ao solo, o calcário terá pouco efeito sobre o pH, se o solo estiver seco.

Nos solos mais restritivos, principalmente em pastagens degradadas, é importante que a incorporação de corretivos seja feita da melhor forma e na maior profundidade possível. Esta operação pode ser feita com gradagens pesadas (28 a 32 polegadas) e aração com aiveca. Se a dose de calcário for maior do que 5 t ha-1, é importante que ela seja parcelada em duas aplicações.

Calagem para soqueiras

Em cana-soca, deve-se proceder amostragem do solo após os cortes impares, para definir a necessidade de reaplicações de calcário após os cortes pares. A amostragem deve ser feita à cerca de um palmo (25 cm) do centro da linha, retirando-se de 15 a 20 subamostras por talhão ou áreas homogêneas, na profundidade de 0-25 cm, para compor uma amostra composta. Utilizar preferencialmente, como ferramenta para amostragem, trado holandês ou sonda.

Realizar os cálculos para elevar o V% até 70%, ou o teor de Ca+Mg para 40 mmolc dm-3, respectivamente para o primeiro e segundo critérios anteriormente apresentados, para compensar a exportação pela cana e perdas por lixiviação relativas as colheitas dos anos pares. Caso a calagem for realizada no mesmo ano da amostragem reduzir o V% para 60 e os teores de Ca + Mg para 30 mmolc dm-3.

Nas soqueiras o calcário também deverá ser aplicado à lanço, de forma homogênea, em área total. Porém não deve ocorrer a incorporação no solo, para que não seja danificado o sistema radicular.

Fatores de sucesso da calagem em cana-de-açúcar

Para se ter a máxima eficiência da prática da calagem, deve-se seguir alguns conceitos, que serão essenciais para a maior resposta agronômica e econômica:

  • A incorporação de doses adequadas no plantio é primordial para o sucesso, já que o objetivo é o aprofundamento das raízes, que permitirão o desenvolvimento das plantas com maior capacidade de absorção de água e nutrientes, tornando-as mais resistentes aos déficits hídricos;
  • Por se tratar de uma cultura que permanecerá por vários anos em produção, a utilização de produtos que apresentem maior efeito residual será interessante na implantação da cultura, permitindo uma correção mais duradoura;
  • Como as aplicações devem ser realizados em área total, atentar para a correta regulagem das máquinas, evitando-se trabalhar com faixas de aplicação muita largas, principalmente para produtos com granulometria muito fina, que terão alta deriva. Em caso de necessidade, aumente a dose de aplicação nesses casos;
  • Pesquisas já demonstram a relação do magnésio com o transporte mais eficiente de açúcar das folhas para os colmos. Por isso, sugere-se a utilização de corretivos com alta concentração de magnésio na implantação dos canaviais, impedindo que a deficiência desse nutriente reduza a produtividade de açúcar dos canaviais.

 

Prof.Dr. Godofredo César Vitti – ESALQ/USP
Dr. Fabio Vale –Adubai Consultoria

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