A acidez do solo ocorre devido a presença de íons H+ livres em solução, gerados por reações como a decomposição de materiais orgânicos e a solubilização de fertilizantes nitrogenados, por exemplo. A correção consiste em neutralizar esses íons, através da aplicação de produtos capazes de gerar ânions OH, conhecidos como corretivos de acidez ou calcários.

De acordo com a Legislação Brasileira, corretivos da acidez dos solos devem ser capazes de fornecer os ânions neutralizantes, assim como conter em sua constituição pelo menos um dos nutrientes cálcio e magnésio. Incluem nessa classificação os produtos à base de carbonatos, óxidos, hidróxidos, além dos silicatos. Os produtos à base de carbonatos e silicatos tem correção mais lenta da acidez, devido a necessidade de transformações químicas no solo do carbonato em OH após a aplicação. Já os óxidos e hidróxidos são mais rápidos, porque já sofreram ações industriais, como a calcinação, que modificaram quimicamente o produto e já possuem OH disponível.

Após a identificação da necessidade de aplicação de corretivos de acidez, a escolha do produto mais adequado a cada situação trará, com certeza, os maiores retornos em termos de produtividade e rentabilidade. E esse é o grande desafio dos agricultores, para a escolha do corretivo que lhe trará os maiores benefícios Em geral, a avaliação da qualidade de corretivos é feita com base no PRNT (poder relativo de neutralização total), que é o índice que aglutina duas características do produto, o poder de neutralização (PN) e pela Reatividade (RE). O PRNT é calculado pela seguinte expressão:

O PN indica a capacidade potencial do corretivo em neutralizar a acidez dos solos, isto é, a quantidade de íons OH- que o produto poderá fornecer para reagir com os íons H+. O seu valor é um índice relativo à capacidade neutralizante de seus constituintes em relação ao padrão carbonato de cálcio puro (CaCO3), que tem o PN igual a 100%. Isso justifica porque o PN de certos corretivos é superior a 100%. Produtos mais ricos em magnésio tendem a ter PN superiores.

Já o RE indica a velocidade de ação dos produtos na correção do solo, em função da granulometria. Partículas menores que 0,3 mm de diâmetro reagirão completamente num período até três meses após a aplicação. As partículas maiores que 0,3 e menores 0,84 terão 60% de seu peso reagindo nesse mesmo período, e o restante após. As maiores que 0,84 e menores que 2 mm terão 20% de reatividade, enquanto que as partículas maiores que 2 mm não reagirão durante curto e médio prazo. A reatividade, a rigor, indica quanto do PN vai agir nos primeiros três meses devido às diferenças granulométricas do produto. O valor máximo do RE é 100%, que significa que todas as suas partículas são menores que 0,3 mm de diâmetro.

Portanto, somente o valor do PRNT não é um indicativo único da eficiência dos corretivos; a rigor ele serve para definir a dose do corretivo a ser utilizada. Para se caracterizar a eficiência, outros fatores devem ser levados em conta na seleção de produtos: a forma química do corretivo que está presente no produto, o PN e o RE, e também as concentrações de cálcio e magnésio. Desse modo, o agricultor terá capacidade de ajustar a época de aplicação do produto em função das características do corretivo e da cultura a ser plantada, definir como aplicar de forma mais eficiente em termos operacionais o produto, além de prever o efeito residual do corretivo.

Efeito residual é o tempo de duração da correção da acidez, e depende de vários fatores: dosagem de corretivo usada, tipo de solo, adubações, intensidade do cultivo, dentre outros. Porém um fator importante no efeito residual é a reatividade, isto é, quanto mais rápida a ação do corretivo, menor é a duração da calagem e vice-versa. Portanto, reatividade e efeito residual são duas características antagônicas.

Um mito existente sobre a utilização de corretivos de acidez do solo refere-se à definição de que, quanto maior o PRNT, maior a velocidade de reação, atribuindo-se a possibilidade de aplicações dos corretivos mais próximos do plantio para produtos com PRNT mais elevado. Se os produtos forem compostos de mesma base química, por exemplo, carbonatos, a velocidade de correção é a mesma, pois para ambos existirá a necessidade das transformações no solo para forma ânions OH. A simples correção das doses em função do PRNT igualará a eficiência dos produtos.

A velocidade de reação somente será maior se for feita a comparação entre bases químicas diferentes, isto é, produtos à base de óxidos e hidróxidos por já trazerem os ânions OH e sua constituição, terão correção mais rápida, e podem realmente ser aplicados mais próximos do plantio. Porém deve-se atentar que normalmente poderão ter maior custo, além de maior dificuldade operacional na aplicação. Tudo isso deve ser levado em consideração na escolha dos corretivos.

Outra tendência que normalmente se considera nas discussões sobre eficiência dos corretivos de acidez do solo é que, quanto maior o PRNT, menor o efeito residual do calcário. Esse conceito não é correto pois, como já discutido anteriormente, o PRNT é um valor relativo a dois parâmetros, o poder de neutralização do material, e a granulometria do produto. O residual do produto somente poderá ser avaliado ao se considerar a forma química presente no corretivo e o seu grau de moagem. Normalmente terão maior residual os produtos à base de carbonatos e silicatos, e que apresentem valores de RE mais baixos.

A importância do RE, ou seja, do grau de moagem do corretivo, será primordial para se definir a durabilidade do efeito do corretivo de acidez. Essa característica dos produtos também terá relação direta com a aplicabilidade do produto. Quanto maior o RE do calcário, a tendência será de maior dificuldade na aplicação, isto é, apresentar maior deriva das partículas para fora da área que se está corrigindo. É comum alguns técnicos e consultores corrigirem a dose do produto para cima, para evitar que as perdas com a deriva influenciem na qualidade da correção. Além disso, a utilização de produtos com alto RE também exigirá regulagens mais adequadas dos equipamentos, evitando trabalhar com faixas de aplicação mais largas, o que pode reduzir o rendimento operacional. Existem metodologias para se reconhecer como é a faixa de distribuição no solo de cada produto, em função de seu PRNT. Na dúvida, elas devem ser aplicadas na prática, para posteriormente se considerar os resultados também nos cálculos para a escolha do corretivo mais adequado para a situação.

Incluir ainda, no processo de seleção do produto, qual o objetivo da correção a acidez, isto é, para que cultura está se manejando a área. Para as culturas de ciclo mais longo, como cana-de-açúcar, café, citros e outras frutas, nas quais a incorporação em profundidade dos corretivos de acidez somente poderá ser realizada apenas na operação de plantio, a utilização de calcários com maior efeito residual poderá favorecer a longevidade da cultura em uma mesma área. Isso deve ser também considerado na escolha do corretivo mais adequado.

E por último, lembrar ainda das concentrações de cálcio e magnésio presentes nos produtos antes da definição do corretivo que trará maior resposta agronômica e econômica. As culturas apresentam necessidades específicas em relação a esses dois nutrientes. Ambos terão importância direta na produtividade e qualidade das culturas. E na grande maioria dos manejos adotados, a adição de cálcio e magnésio se restringe apenas ao teor contido nos corretivos de acidez. No caso do cálcio essa preocupação é ainda maior em áreas aonde não se aplicará gesso agrícola e na qual serão utilizados de formulações NPK de alta concentração. E para o magnésio, o caso é ainda mais preocupante, pois para a grande maioria das culturas não existem fontes alternativas para a aplicação desse nutriente. Por isso, na dúvida, utilize produtos mais ricos em magnésio.

Tomando todos esses cuidados, com certeza a operação de correção de acidez do solo terá o máximo retorno em rentabilidade para a agricultura.

 

Dr. Fabio Vale –Adubai Consultoria

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