A amostragem é considerada a fase mais crítica de um programa de recomendação de correção e adubação baseado em análise química de terra. O objetivo da amostragem é caracterizar a fertilidade de uma área ou gleba de grande dimensão, por meio da determinação das quantidades de nutrientes e outros elementos presentes, através de uma pequena fração de terra. . A pesquisa tenta sistematizar certos procedimentos a fim de minimizar os erros de amostragem, devido a heterogeneidade que os solos apresentam.  Os responsáveis pela coleta devem seguir com muito critério os procedimentos sugeridos, principalmente com relação à escolha da área a amostrar, número de subamostras a serem coletadas que representem adequadamente o solo, e os cuidados pertinentes no momento da coleta.

Para se ter uma ideia da importância de uma amostragem correta, supondo-se uma área de 5 hectares e a profundidade da camada arável (0-20 cm), o volume de solo total a ser representado pela amostra é aproximadamente 740 milhões de vezes maior que o volume a ser utilizado pelo laboratório para determinar a fertilidade. Portanto, quanto mais homogênea e correta for a amostragem, mais representativa será a amostra.

Volume de 5 ha

Amostra

Amostra Analisada

10.000.000 dm³

0,5 dm³

0,0135 dm³

Procedimentos para amostragem
01.

Material utilizado

01. Ferramentas para retirada de amostra (Figura 1) – Uma série de ferramentas são adequadas para uma boa amostragem do solo. A escolha deve-se basear principalmente no tipo de solo e na habilidade do operador que vai retirar a amostra. O ideal é que sejam capazes de tomar pequenos, suficientes e iguais volumes de solo em cada ponto de amostragem, que sejam de fácil limpeza, adaptem-se a diferentes tipos de solo, sejam resistentes e duráveis. Devem ser de aço inoxidável, para evitar contaminações principalmente de micronutrientes. As principais ferramentas de amostragem são:

a) Trados – Apresentam bom desempenho. Seu uso pode ser prejudicado em solos de textura arenosa e baixa umidade. Exigem maior esforço, mas permitem retiradas de mesmo volume em cada ponto. O tipo caneco é o melhor para solos compactados e secos, e também nos turfosos ou orgânicos. O tipo calador é ideal para solos de textura média e úmidos.

b) Pá reta, enxadão ou cavadeira – Mais simples e disponíveis em qualquer propriedade. Requer prática, pois não é preciso no volume de terra e profundidade de amostragem. Acarreta maior demora para uma perfeita amostragem.

c) Sonda – Retira volumes iguais e na mesma profundidade, trabalha praticamente em qualquer tipo de solo, sendo mais difícil sua utilização em solos mais duros. É rápido e evita contato da terra com as mãos.

Figura 1. Ferramentas apropriadas para retirada de amostras.

02. Baldes de plásticos
03. Sacos plásticos
04. Caixas para armazenar amostras
05. Espátula inox

02.

Divisão da área em talhões ou glebas homogêneas

Divida sua propriedade em glebas homogêneas (figura 2), nunca superiores a 20 hectares, e amostre cada área isoladamente. Separe as glebas com a mesma posição topográfica (solos de morro, meia encosta, baixada, etc.), cor do solo, textura (solos argilosos ou arenosos), cultura ou vegetação anterior (pastagem, café, milho, etc.), adubação e calagem anteriores. Em culturas perenes, leve em conta também a idade e variedade das plantas. Áreas com uma mesma cultura, mas com produtividades muito diferentes, devem ser amostradas separadamente. O ideal é que se identifique essas glebas de maneira definitiva, fazendo um mapa para o acompanhamento da fertilidade do solo com o passar dos anos.

A amostragem é um passo chave que se não for feita adequadamente, todas as demais decisões e orientações estarão comprometidas.

 

Figura 2 – Divisão da área em talhões homogêneos

03.

Número de subamostras por gleba

Na coleta de amostras de solo para análise química, trabalha-se com dois tipos de amostras:

  • Amostra ou subamostras é a porção coletada em cada ponto do terreno.
  • Amostra composta é a mistura homogênea das várias amostras simples coletadas. Desta amostra composta é que se retiram cerca de 300 g para serem enviados ao laboratório.

Cada amostra composta representará as características químicas de cada talhão, portanto deve-se ter o cuidado de coletar as amostras simples procurando cobrir a totalidade do talhão. A figura 3 ilustra a recomendação de se fazer a coleta caminhando em ziguezague.

A pesquisa já demonstrou que quanto maior o número de amostras simples tomadas para compor uma amostra composta, maior é a possibilidade de se ter uma amostra representativa. O número no qual o erro amostral é bastante reduzido é de 20 amostras simples compondo uma amostra composta. Essas subamostras devem ser armazenadas em balde plástico e, ao final da coleta, serem homogeneizadas, gerando uma única amostra de cada gleba homogênea. Deve-se secar o solo, armazená-lo em saco plástico ou caixa de papelão, identificar corretamente e enviar para laboratório de confiança.

 

Figura 3 – Caminhamento para coleta de subamostras

04.

Época de amostragens

A amostra de solo pode ser coletada em qualquer época do ano, no mínimo 3 a 4 meses antes do plantio, possibilitando que se planeje a compra de todos os insumos na época adequada. Portanto, para culturas anuais de verão o ideal é no final do outono. Para citros, a amostragem deve ser feita entre março e maio, no mínimo 60 dias após adubação. Para café, uma boa época é antes da colheita.

No caso de amostragens em soqueiras de cana-de-açúcar, realizar a amostragem nos anos ímpares, após o primeiro, terceiro e quinto cortes, visando aplicação dos corretivos de solo para a soqueira nos anos pares, no corte posterior à amostragem. Quando a correção for realizada no mesmo ano da amostragem, proceder à mesma nos anos pares, após o segundo e quarto cortes e antes da reforma.

É importante ressaltar que a pesquisa orienta que o calcário esteja aplicado no solo três meses antes do plantio, para que o calcário tenha produzido a correção pretendida ou a disponibilização de Ca e Mg na quantidade esperada. Contudo, mesmo que não dê para aplicar calcário com a antecedência recomendada, apurando-se a necessidade de calagem através da análise de solo, deve-se fazer a calagem a qualquer tempo, pois os efeitos benéficos da calagem serão alcançados no decorrer do desenvolvimento da cultura.

05.

Frequência de amostragens

A frequência de amostragem depende da intensidade de uso do solo. Quanto maior a intensidade do uso do solo maior a necessidade de se reduzir o tempo entre as análises. De modo geral pode se amostrar os solos a cada dois ou três anos. Culturas de ciclo curto ou altas produtividades recomenda-se amostragens anuais.

06.

Profundidade de amostragem

De maneira geral, a amostra é retirada à profundidade de 20 cm, devendo representar uma porção uniforme de 0 a 20 cm. Em áreas ainda não preparadas mecanicamente (aração, gradagem, etc.) ou com cobertura morta, deve-se limpar a superfície do solo nos locais escolhidos para retirar as subamostras, removendo-se folhas, ramos ou galhos com cautela suficiente para não remover parte significativa do solo.

A adoção das amostragens a 20 cm apresenta vantagens na uniformização do procedimento que permite a comparação de resultados obtidos no passado, visando a constituição de um histórico da fertilidade química, e também possibilita a comparação com resultados de análise de solos de outras localidades.

Amostragem nesta profundidade vem sendo normalmente adotada em sistemas de cultivo convencional, onde o preparo do solo, para a semeadura da cultura anual, consiste numa aração e duas gradagens. Neste sistema, o solo sofre um revolvimento na camada de 0-20 cm.

Objetivando averiguar o ambiente radicular no subsolo, recomenda-se ainda que se faça a amostragem nas profundidades de 20-40 e 40-60 cm. Há evidências de que nestas profundidades a presença de alta quantidade de alumínio associada à deficiência de cálcio, possam atuar como uma barreira química, impedindo o crescimento radicular em profundidade. Para o algodoeiro, o conhecimento das condições de acidez subsuperficial é muito importante, pois saturações de alumínio superiores a 20 % podem comprometer ou até inviabilizar a cultura nestas áreas. Este procedimento de amostragem também é recomendado para áreas novas de cultivo.

Em pastagens sob manejo extensivo, onde raramente se faz adubações ou renovações, também se recomenda a amostragem na profundidade de 0-20 cm.

Em sistemas de plantio direto há uma tendência de concentração dos nutrientes e da matéria orgânica nos primeiros centímetros de solo, devendo-se basicamente ao padrão de mobilidade dos íons no solo, não incorporação de fertilizantes e corretivos através do revolvimento e ao enriquecimento das camadas mais superficiais pela decomposição dos resíduos das culturas. Assim, visando detectar a existência ou não de um gradiente de fertilidade, torna-se necessário executar uma amostragem mais estratificada: 0-10, 10-20, 20-40 e 40-60 cm. Tal procedimento deve ser adotado também para pastagens sob manejo intensivo.

Para culturas perenes (Ex. café e frutíferas) já instaladas, amostrar de 0-10, 10-20, 20-40 e 40-60 cm na projeção da copa, que é o local da adubação, podendo-se retirar uma segunda amostra entre as linhas de plantio ou no centro das ruas, porque a aplicação por vários anos de fertilizantes sob a projeção da copa causa não apenas um gradiente de fertilidade vertical, como no plantio direto, mas também horizontal. Embora as culturas perenes tenham um sistema radicular mais profundo, elas apresentam menor demanda de nutrientes por volume de solo e por unidade de tempo do que as culturas anuais, devido ao crescimento lento e à absorção diferencial de nutrientes durante o ano. Isto torna necessário que se avalie um maior número de camadas para o diagnóstico da fertilidade. Na instalação das culturas, a amostragem deve ser feita na profundidade de 0-20, 20-40 e 40-60 cm.

A amostragem em lavouras para plantio de cana-de-açúcar deve ser feita nas profundidades de 0-25 e 25-50 cm,  cerca de dois meses antes do plantio. Já para as soqueiras deve-se realizar a amostragem logo após o corte, retirando as subamostras a cerca de um palmo (20 a 25 cm) da linha. As amostras retiradas na linha irão superestimar os teores de P e K, enquanto as na entrelinha superestimarão os teores de Ca e Mg (e, portanto, a Soma de Bases e V%), e subestimar o P e K.

07.

Tipo de Análises a realizar

Se foi retirada apenas amostra na camada superficial, sugere-se a realização e análise completa, isto é, determinando-se todos os elementos presentes, macro e micronutrientes, incluindo a determinação do alumínio tóxico. Pelo menos na primeira amostragem da área, proceder analise física textural para ambas as camadas.

No caso de amostragens em pelo menos duas camadas, solicitar para a camada superior (0–20 ou 0-25 cm) as análises de rotina e micronutrientes, enquanto para a camada inferior, além da análise de rotina, incluir as análises de alumínio e enxofre.

Pelo menos na primeira amostragem da área, proceder analise física textural para todas as amostras.

08.

Cuidados especiais com amostragem

  • Retirar quantidades de solo equivalentes em cada amostra simples, para que cada ponto contribua igualmente para a amostra.
  • Não coletar amostra após chuva, aguardando 2-4 dias de sol. A homogeneização é mais eficiente.
  • Evitar enviar amostras na última hora, em períodos de pico de trabalho nos laboratórios.
  • Não exagerar no volume de terra enviado (0,5 kg é o suficiente).
  • Não se esquecer de identificar as amostras, senão todo serviço estará perdido.
  • Procurar deixar etiquetas do lado de fora da embalagem, para que umidade do solo não as danifique.
  • Não enviar amostras excessivamente úmidas. Procure secá-las à sombra antes de enviar ao laboratório.
  • Antes de remeter ao laboratório, consultar previamente preço e prazo de resposta, para evitar surpresas.
  • Preencher questionário fornecido pelo laboratório, fornecendo todos dados referentes às culturas e ao manejo.
  • Procurar enviar amostras para laboratórios que participem de programas de controle de qualidade.

09.

Amostragem para agricultura de precisão

A aplicação de técnicas de agricultura de precisão (AP) no manejo da fertilidade do solo vem despertando um  interesse cada vez maior de agricultores, consultores e empresas prestadoras de serviços. O ponto de partida é a realização de amostragens que permitam caracterizar a variabilidade espacial dos atributos do solo relacionados à produtividade das culturas numa determinada área.

Para tanto, normalmente tem sido coletada amostras georreferenciadas dispostas numa grade amostral “grid” (Figura 4), de modo a permitir que os resultados das análises possam ser processados por meio de geoestatística e posteriormente sejam elaborados mapas interpolados que representam a variação espacial nos valores de cada atributo analisado. De posse dos mapas de fósforo (P), potássio (K) e saturação por bases (V%), por exemplo, é possível gerar mapas de prescrição de fornecimento de fertilizantes e de calcário em quantidades distintas para diferentes partes do talhão, de acordo com a mudança na condição de fertilidade de um local para outro dentro da área em questão. O mesmo pode ser feito visando a realização de gessagem, desde que se realize amostragem georreferenciada também na camada de 20 a 40 cm de profundidade. Já se dispõe hoje de maquinário, inclusive de fabricação nacional, capaz de variar automaticamente a aplicação desses insumos de acordo com os mapas de prescrição.

 

Figura 4 – Amostragem para agricultura de precisão (Grid)

O conjunto dessas etapas é designado pelo termo em inglês “Variable Rate Technology” (VRT), que no presente caso pode ser traduzido como “tecnologia de adubação a taxa variável”. A execução dessas operações constitui, portanto, o que se chama de manejo localizado ou manejo sítio específico da fertilidade do solo.

Os procedimentos desde a amostragem georreferenciada até a distribuição de corretivos e fertilizantes a taxa variável representam, sem dúvida, o principal serviço de AP oferecido atualmente aos produtores rurais no Brasil. Empresas especializadas empregam amostradores hidráulicos de solo adaptados em quadriciclos ou caminhonetes com GPS para as coletas a campo (Figura 5), processam os resultados de análise por meio de programas computacionais de geoestatística e utilizam sistemas de informação geográfica (SIG) para produzir os mapas diagnósticos e de prescrição (Figura 6), sendo estes reconhecidos pelos equipamentos distribuidores de corretivos e fertilizantes a taxa variável.

 

Figura 5 – Quadriciclo, equipado com GPS, computador de bordo e dotado com amostrador próprio. Fonte: RC – Serviços e consultoria agronômica em agricultura de precisão

 

Figura 6 – Mapa de diagnóstico e prescrição de calagem

 

Discussões atuais sobre a viabilidade técnica e comercial do processo envolvem principalmente o tamanho da grade amostral e o custo do processo. A divisão do talhão em grade com células de tamanho variável, normalmente entre 2 e 10 hectares, vem sendo empregada para amostragens de solo pelas empresas prestadoras de serviços em AP no Brasil. Antes de uma definição baseada em alguma informação preliminar sobre o grau de homogeneidade das áreas a serem amostradas, a escolha do tamanho de célula ou malha amostral tem sido atrelada à negociação de preço a ser cobrado pelo serviço. Como forma de baixar custos, é frequente o uso de amostragem de baixa densidade. Um problema adicional, principalmente no caso de grades menos densas, é a disposição arbitrária da grade sobre o mapa de contorno do talhão para indicar os pontos de coleta a serem seguidos no campo. Esse procedimento não garante que, dentro de cada célula, as características e propriedades do solo serão homogêneas.

No que se refere à fertilidade do solo, a AP tem grande potencial de desenvolvimento, mas ainda envolve elevados custos com análises de solo. Nesse aspecto, é necessária a definição de técnicas de amostragem otimizadas, que permitam reduzir o número de amostras a serem analisadas, mas mantenha-se a confiabilidade para recomendação de calagem, gessagem e adubação de forma diferenciada dentro do talhão.

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